O SER HUMANO FORMA COMUNIDADE,
QUANDO A SOLIDARIEDADE É PARTE DE SEU PROJETO DE VIDA
QUANDO A SOLIDARIEDADE É PARTE DE SEU PROJETO DE VIDA
Solidariedade, um projeto em contínua construção:
reúne pessoas que se propõem a realizar-se como alguém,
em comunhão, na comunidade que reconhecem como lugar da vida,
onde renovam seus motivos em prosseguir na busca do sempre mais,
na condição de homens e mulheres, sujeitos e protagonistas de
suas ações.
Homens e mulheres, na sociedade atual, vivem uma
realidade marcada por substratos sócio-econômico-político-culturais -
característicos dos novos tempos - e situações
que caracterizam a mudança de época. Nesta conjuntura, são motivados a refletir
sobre a sua condição humana; consequentemente,
sobre as razões de existir, numa era em que a ciência e a tecnologia se
destacam no primado das relações humanas e propõem novos paradigmas para uma
civilização que, desejando ou não, se
insere no mundo da globalização.
Identidade, Alteridade e Solidariedade
São palavras-chaves que constam do discurso e prática
de toda e qualquer comunidade humana, em tempos globais. Palavras que, uma vez
apreendidas e compreendidas, vão impregnando de novo significado as ações
humanas, orientadas para um objetivo: a
harmonia e a paz no presente e no futuro das gerações.
Harmonia e paz são frutos da justiça. Harmonia que se
constrói na convivência; paz que se estabelece num projeto existencial
impregnado de espiritualidade; e justiça que se exercita na e pela
solidariedade.
Esta reflexão aponta para outros tantos
aspectos a serem questionados:
Se a solidariedade é admitida como o cerne de um
projeto comum, para dar conta de um significado a que todos - e, ao mesmo
tempo, cada ser humano - buscam para a sua existência, como promovê-la sem o
reconhecimento da própria identidade?
Uma vez convicta da sua condição humana, ou seja,
identificando-se e aceitando-se como tal, como cada pessoa admite a sua
interdependência em relação à outra, à natureza e ao mundo?
Além do mais, o(a) outro(a) é sua interlocutor(a),
que também admite a sua humanidade, os seus limites, as suas finitudes, assim
como seus anseios, capacidades, dons naturais ou habilidades adquiridas. Nesse
sentido, que novas formas de solidariedade são percebidas como necessárias para
se levar adiante os seus propósitos comuns de construção de uma nova sociedade?
O reconhecimento do outro como ser humano é um ato
eminentemente ético e traz implícitas significativas conseqüências para a
comunidade humana, em seus diferentes níveis de abrangência. Entre outras,
consideramos:
o exercício do respeito mútuo;
este exercício torna possível a construção da
identidade de todos, sem menosprezar a alteridade de nenhum; ou seja, se num grupo ou comunidade humana, estabelecem
relações de reciprocidade, co-responsabilidade, valorização das partes com suas
diferenças individuais, vão se descobrindo semelhanças nos ideais e os
concretizando de forma participativa, interativa, em que cada um tem a sua vez
e a sua forma de contribuir com o que é, com o que sabe e com o que tem ou
pode, sem preconceitos, discriminações e outras formas de exclusão;
o respeito à vida do outro;
o que pressupõe a concepção do valor da própria vida,
da dignidade do ser humano como valor primordial, nunca um valor relativo. Se
substituído ou colocado em função de outros valores, senão ao da sua plena
realização como um ser-alguém, para a sua felicidade e felicidade daqueles com
quem convive e reconhece pelos mesmos motivos, seria a negação do seu próprio
ser como pessoa;
o reconhecimento da transcendência do outro;
trata-se de reconhecer o outro como ser em si mesmo,
na sua individualidade, liberdade de
pensar, querer, agir, expressar-se, ser aceito na diferença, admitido como
único na sua condição, ávido de sobreviver como ser humano. Em conseqüência,
com direito ao seu espaço, isto é, com a devida segurança para a própria vida. Vida
que não pode ser violentada, depreciada, impedida de desenvolver-se. Vida que
mantém o desejo de todo ser humano em superar a si mesmo, de prosseguir além do
próprio limite em busca da plenitude; vida que depende da natureza, dos demais
seres nela inseridos e com os quais se relaciona em diferentes níveis e
situações;
uma
educação para o pleno exercício da cidadania;
em que homens e mulheres aprendam juntos a "Ser
e a Conviver";[1] e encontrem
a melhor forma de conhecer e aperfeiçoar seus conhecimentos; uma vez conhecendo
e aprofundando o que aprendem, coloquem em prática o que conhecem, atuando no
mundo como verdadeiros construtores de
uma nova civilização. Há de ser uma civilização onde a mulher não mais seja
relegada ao segundo plano, discriminada por sua condição feminina, mas cidadã
consciente de seu importante papel na história; uma história traçada,
percorrida e registrada com igual responsabilidade, níveis de participação,
competências, considerando as habilidades próprias de sua natureza feminina,
tão necessárias quanto as habilidades da condição masculina. É questão de
direito e de conquista da parte da comunidade
feminina, questão de sensibilidade e de justiça da parte da comunidade masculina. Ambos os
setores interdependem, interpelam, interagem, intervencionam nas interfaces de
uma civilização, que continuamente evolui em suas concepções de ser humano e de
mundo. Contudo, ambos os setores não estão isentos dos retrocessos, do
"mito do eterno retorno", da fragilidade de suas certezas, das limitações
do próprio progresso científico e suas conotações culturais, da auto-suficiência
do poder, da ineficiência de um saber em contínuo processo de busca.
Um projeto existencial tem a ver com a
cultura da paz!
O reconhecimento do(a) outro(a) em igualdade de
condições, em se tratando dos seus direitos e deveres, tem a ver com a cultura
da paz.
É antes de tudo um projeto de vida, que desliza sobre
dois trilhos: o da Solidariedade e o da Linguagem como "epifania" do
Ser. Esses trilhos são sustentados por princípios democráticos originados de
uma ampla concepção de Pessoa.
Pessoa : um ser-quem
um ser-com
um ser-aí
um ser-em-contínua-busca das razões de ser,
um ser-projeto.
Para sê-lo só há um caminho: o humano.
Para sê-lo só há um caminho: o humano. Ao buscar o plenamente humano, ultrapassa os limites
do ser imanente, do ser-aqui-agora, em direção ao vir-a-ser-sempre.
No esforço de ultrapassagem do ser - imanente,
realiza a experiência do transcendente. Busca o sempre mais, exercita a sua
espiritualidade, chegando a impregná-la de um novo significado.
Não se trata da espiritualidade no sentido religioso
a que muitos dão ao termo, mas espiritualidade no sentido amplo da condição
humana, na consciência de que existe.
A linguagem, como "epifania do ser",[2]
traduz normalmente tal espiritualidade e permite ao ser humano encontrar novas
maneiras de promover a solidariedade, graças às diferentes formas culturais de
manifestar a compreensão da vida. Se melhor compreendida, novos horizontes são
ampliados para a efetivação da paz.
É nesse contexto que a educação
religiosa, como mediação favorável ao aguçamento de um interrogar natural sobre
a vida, estará suscitando novas formas através das quais um grupo poderá
garantir a seus membros os meios propícios ao desenvolvimento de suas
potencialidades naturais, bem como as formas de adquirir a experiência social e
culturalmente organizada, em ordem à sua participação no crescimento da
comunidade a que pertence e realização pessoal. Nessa participação comunitária
e busca de realização pessoal, em sucessivos momentos de construção de seu
projeto de vida e de sua concretização, o ser humano continua a indagar:
- Que sentido tem a existência? Que
lugar ocupa no projeto humano comum? Qual o meu papel aí? Como desempenhá-lo? O
que poderá favorecer esse desempenho? E muitas outras indagações.
A educação não perde de vista as
eventuais respostas que poderá dar a tais questionamentos ou apontar a melhor
forma de encontrá-las. Não perde de vista, também, o desenvolvimento harmônico
de educandos e educadores como pessoas portadoras de potencialidades, em ordem
à sua plena realização, integradas num grupo social e culturalmente organizado.
Numa comunidade em que certa espiritualidade dá consistência a
um fundo único, cada ser humano tem algo de si a transmitir, do ponto de vista
de suas experiências, relacionadas com as questões de sobrevivência, bem-estar,
preservação ou melhoria da qualidade de vida, razões de ser e de pertencer ao
grupo, desejo de existir e partilhar de
suas motivações naturais ou suscitadas.
Nesta mesma comunidade, a
interação das funções do “homo sapiens”, “somaticus”, “vivens”, “volens”,
“loquens”, “socialis”, “faber”, “culturalis”, “ludens” e outras mais, permitem
a cada membro a compreensão da vida como um todo.
Com outras palavras, contribuem para que cada ser humano na
condição feminina ou masculina, apropriem-se do conceito de si mesmo(a) como
ser vivente, pensante, conhecedor, livre, comunicativo, convivente, criativo,
cultural, portador de desejos através dos quais se realizam pessoal e comunitariamente.
Desta forma, todo fazer pedagógico tem como meta, o grande
imperativo dos tempos atuais: a solidariedade.
Nesta incluem o equilíbrio entre as polaridades, a concepção de valores, as
atitudes, as habilidades e competências, o senso do simbólico e do sagrado, do
ético e do estético, que muito têm a ver com a identidade do cidadão e cidadã
do novo século; mantém como fio condutor um projeto comum, ou seja, a forma
mais eficaz de exercitar a justiça e promover a paz no presente e no futuro das
gerações.
Cada cidadão, na condição de homem ou mulher, é antes de tudo um
ser-projeto. Concretiza suas aspirações como ser-aqui-agora, na perspectiva do
vir-a-ser sempre; promove, assim, o dinamismo da vida como conjunto de
possibilidades. Solidariedade não é, somente, ponto de chegada, mas também
ponto de partida para tais possibilidades, em todo o transcurso do fenômeno
existencial.
Considerações Finais
O ser humano busca as razões de existir, torna-se pessoa e constrói a
comunidade, porque crê na solidariedade como fio condutor de seu projeto de
vida.
A solidariedade é, portanto a meta de um
projeto que reúne pessoas que se propõem a realizar-se como alguém, em
comunhão, numa comunidade que reconhecem como lugar da vida. É aí que renovam
os seus propósitos em prosseguir na busca do sempre mais, na condição de homens
e mulheres, sujeitos e protagonistas de suas ações. Trata-se de um projeto em
contínua construção, onde nenhum setor deve fica à margem.
Em novos tempos, a mulher ocupa o seu espaço na sociedade, como
cidadã, com iguais direitos e deveres, superando a condição de inferioridade em
que se encontrava em épocas anteriores.
Constituída de pessoas portadoras de potencialidades que lhes permitem
contribuir para o bem-comum, a comunidade contribui, assim, para a realização
de cada um(a) como ser-quem, com-quem, em missão que procede do seu projeto
existencial.
[1] Cf.
Delors, Jacques e outros. Educação um tesouro a descobrir. Relatório da
Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. São Paulo, Cortez/MEC,
1998, pp. 101-102.
[2] Cf.
Heidegger, M. Camino verso il linguaggio, Mursia, Milão, 1973, p. 27.
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